Movimento sem performance: o corpo no dia

Nem todo movimento precisa melhorar uma marca, mudar um número ou produzir um resultado visível. Às vezes, mexer o corpo é só uma forma de voltar para ele.

Mulher caminhando pelo calçadão de Ipanema ao fim da tarde, com o Dois Irmãos ao fundo e o mar à esquerda.

Durante muito tempo, aprendemos a falar sobre movimento quase sempre em termos de resultado: quantos quilômetros, quantas calorias, quantas repetições, quanto peso, quanto tempo, quantos dias por semana.

Existe valor em acompanhar progresso quando isso ajuda alguém a se organizar ou alcançar um objetivo, mas há alguma coisa que se perde quando toda relação com o corpo começa a precisar de uma justificativa.

Às vezes, eu só quero caminhar. Não para bater uma meta, compensar o que comi ou transformar aquela caminhada em prova de disciplina. Quero andar porque o dia está bonito, porque fiquei tempo demais sentada, porque minha cabeça precisa mudar de cenário ou simplesmente porque meu corpo parece pedir movimento.

Gosto de pensar que nem todo gesto precisa ser convertido em desempenho. Existe uma liberdade grande nisso.

O corpo não precisa ser um projeto

Talvez uma das coisas mais cansativas da cultura de bem-estar seja a facilidade com que o cuidado se transforma em vigilância. O corpo vira alguma coisa para medir, melhorar, controlar, comparar e corrigir constantemente e, de repente, aquilo que deveria aproximar a gente do próprio corpo começa a produzir exatamente o contrário: distância.

Não quero pensar em movimento dessa forma. Para mim, ele pode existir numa escala muito mais cotidiana: alongar os braços depois de horas no computador, subir uma escada, caminhar para buscar um café, dançar enquanto arruma a casa, entrar no mar, fazer uma aula porque é gostoso estar ali ou simplesmente dar uma volta pelo quarteirão depois do jantar. Nenhuma dessas coisas precisa parecer extraordinária para contar.

Um corpo em movimento não precisa estar provando nada.
Mulher com mochila subindo uma escadaria de pedra, o Cristo Redentor enquadrado ao fundo pelo arco.

Há dias diferentes dentro do mesmo corpo

Também gosto da ideia de abandonar a expectativa de que nosso corpo tenha sempre a mesma disposição. Há manhãs em que existe energia para uma caminhada longa; em outras, vinte minutos parecem suficientes. Há dias em que uma aula faz bem e outros em que o corpo pede silêncio, sofá e descanso. Isso não é necessariamente falta de disciplina. É vida.

Sono, rotina, trabalho, idade, estresse, ciclo hormonal, viagens, preocupações e tantas outras coisas atravessam a maneira como nos sentimos fisicamente. Esperar o mesmo rendimento todos os dias talvez seja pedir ao corpo que ignore tudo o que está acontecendo ao redor dele. Escutá-lo não significa nunca se desafiar. Significa apenas não transformar desafio em punição.

Movimento também pode ser prazer

Existe um tipo de exercício que fazemos porque sabemos que faz bem. E existe também aquele movimento que quase esquecemos de chamar de exercício porque estamos ocupadas demais nos divertindo: uma dança, uma caminhada por uma cidade nova, um mergulho, uma trilha bonita, pedalar perto da praia, brincar com uma criança ou passear com o cachorro por mais tempo do que o planejado.

Mulher rindo enquanto joga vôlei na praia ao pôr do sol, com o Dois Irmãos ao fundo.

Eu gosto especialmente desses momentos porque o corpo participa da vida sem ficar no centro dela. Ele simplesmente acompanha.

Talvez uma das formas mais bonitas de movimento seja quando paramos de observar o corpo de fora e voltamos a experimentá-lo de dentro.

Sentimos o vento, a respiração mudando, o músculo trabalhando, a temperatura da água, o cansaço bom depois de caminhar. Não existe espelho nessa experiência. Existe presença.

Nem todo dia precisa terminar em conquista

Há uma linguagem muito comum em torno de exercícios que transforma tudo em vitória ou fracasso: consegui, falhei, fui disciplinada, não tive força de vontade. Mas talvez algumas coisas não precisem caber nessas categorias. Uma caminhada curta continua sendo uma caminhada. Dez minutos de alongamento continuam sendo dez minutos em que você prestou atenção no corpo. E um dia de descanso continua podendo ser parte de uma relação saudável com movimento.

Cuidado não precisa ser uma competição entre quem você é hoje e quem acredita que deveria ser.

Talvez possamos abandonar um pouco a ideia de que todo movimento precisa nos levar a algum lugar. Às vezes, ele apenas nos encontra onde estamos.

Um corpo para viver dentro

No fim, o que mais me interessa não é um corpo que execute tudo perfeitamente. É um corpo que consiga participar da vida: que tenha força para carregar uma mala, disposição para atravessar uma cidade a pé, mobilidade para sentar no chão, subir uma escada, entrar no mar, dançar numa festa e levantar da cama num dia comum.

Um corpo que não seja apenas observado, mas habitado.

Talvez movimento seja justamente isso: uma maneira de manter essa conversa aberta com o próprio corpo, sem obsessão, sem punição e sem precisar transformar cada passo em evidência de alguma coisa. Mover porque faz bem, descansar quando for necessário e deixar o corpo ser, antes de tudo, o lugar de onde a vida acontece.

Fique mais um pouco.

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